Entre a segunda quinze nade março e a primeira semana de abril, 18 fabricantes de carros, caminhões, ônibus e motocicletas no Brasil decidiram paralisar suas atividades entre 5 e 12 dias. Além do avanço de casos de infectados pelo coronavírus, boa parte das montadoras decidiu também parar por falta de componentes. Aquelas que não pararam ou apenas reduziram turnos tiveram de fazer um esforço logístico para completar unidades que estavam paradas nos pátios, com a falta de algum componente.
Esta semana, a Fiat também pode desacelerar o ritmo da fábrica de Betim (MG), por causa da falta de componentes eletrônicos. Em março, a linha de produção já havia sido reduzida para um turno por dez dias, por esse mesmo motivo.
As vendas no primeiro trimestre foram consideradas como "frustrantes" pela Anfavea. A entidade que reúne as montadoras registrou queda de-5,4% nos licenciamentos em licenciamentos no período e, mais preocupante, a retração de -23% sobre o último trimestre do ano passado, freando a recuperação que vinha desde a metade do ano.
Trimestre difícil Para o próximo trimestre, a expectativa é uma travessia penosa, até que o mercado se recupere no segundo semestre. Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, aponta três pontos de preocupação: a estabilização da pandemia a médio prazo com a aceleração da vacinação; o conjunto dos fundamentos econômicos, ameaçado não só pela pandemia, mas também pelo excesso de ruídos políticos e os gargalos na produção, sobretudo de componentes eletrônicos, um problema global que deve perdurar ao longo do ano.
Na opinião do consultor da AM2, Marco De Mitri, o cenário é complexo, com variáveis complexas. "As montadoras passam por um grande dilema: custos e investimentos altíssimos na produção de carros e motores, e tentam diminuir esse custo fixo, ao reduzir ou paralisar linhas, reduzindo jornadas e turnos. Não adianta ficar aberto, com a falta de insumos vindos de EUA e China", opina o consultor. "A montadora para, respira, vende os estoques das concessionárias. Com esse pulmão, avalia o fornecimento de peças e aí volta redimensionando os turnos de trabalho. A maioria não vai além de um no máximo dois turnos".
Isso continua impactando no varejo (concessionárias) até o final do semestre, com fechamento de lojas e até oficinas. "Esse abre e fecha tira a previsibilidade do varejo e afeta a programação de pedidos. As montadoras devem readequar os acordos de cotas de produção com a rede de concessionárias. Só devem voltar ao normal no terceiro trimestre. Três meses é um prazo curto para normalizar toda a cadeia, que começa lá na China como matéria-prima. Sem dizer nos custos elevados em cima dos insumos, transporte etc.", explica De Mitri.
Nesse cenário, os preços estão elevados e com tendência de aumentar ainda mais. "Os preços dos carros aumentam mesmo sem ter os carros. A preocupação é a rentabilidade e não o volume, senão não vão sobreviver".
O consultor também enxerga com preocupação o lado do varejo, com aumento de demissões. Ele aponta uma redução mais recente de 30% do quadro das concessionárias. "Eles não têm carro para vender e os custos fixos são altos".
De Mitri cita que há poucos volumes em estoque e hoje a espera é em torno de três meses para quase todos os Volkswagen e Chevrolet (exceto o Onix e Onix Plus, que só devem voltar às lojas após julho). "Você ainda encontra picapes como S10, Ranger e Frontier, que vêm da Argentina. Alguma coisa da Toro, Renegade e Compass, porque não pararam. Mas hoje há fila para Nivus e Strada, os concessionários pedem sinal e repassam o aumento depois ao cliente. Só assim fecham negócio", afirma. Neste cenário, o Volkswagen Taos, que deve chegar nos próximos meses, já enfrentará problemas de oferta em seu lançamento.
Outro agravante à distribuição, mais a médio e longo prazo, é a estratégia cada vez mais comum das montadoras em ofertar assinatura de veículos. "É uma mudança de cultura, mas já está acontecendo. Muitos querem entrar nesse ramo, mas não sabem como fazer. O timing de entrar nesse negócio já foi. A distribuição de carro vai mudar bastante depois desta pandemia", avalia De Mitri.
Dinâmica do mercado A escassez de componentes em plena recuperação do mercado norte-americano obrigou gigantes como Ford e GM a pararem fábricas nos EUA. "Aqui no Brasil o cenário é especialmente delicado, pois além da escassez de insumos, o agravamento severo dos impactos sanitários da crise levou à pausa nas operações de 18 fábricas de veículos. A situação representa mais um grande tropeço na recuperação da indústria, que ensaiou um respiro no primeiro trimestre, com acréscimo (2%) na produção, em comparação com 2020. Como consequência, o mercado continua desabastecido, gerando um represamento no consumo e aumento dos preços", observa Clênio Luiz Cunha, fundador e CGO da Auto Force, martech que desenvolve tecnologias e soluções de marketing digital para o segmento automotivo.
Filas de espera e descontos fazem parte da dinâmica natural do mercado. "É a lei da oferta e da procura. Se você tem um produto para venda e muitas pessoas interessadas nele, qual o motivador para dar descontos? O "cliente A" pode não querer comprar sem desconto, mas temos o cliente B, C, D, E e F. A lógica é inversa, os preços tendem a aumentar junto com a demanda", explica Cunha.
Para ele, o mercado está tão represado que absorve toda a produção, mesmo com agravamento da pandemia. Março teve um acréscimo 11,9% nas vendas em relação a fevereiro (dados da Autoinforme). "A cadeia opera em condições extremamente difíceis, não tem muita margem para manobra. Acredito que o mais provável é uma retomada ainda em abril e escalada da produção para os níveis do primeiro trimestre em maio e junho", avalia.
Aumento da demanda A pandemia trouxe uma nova realidade para o mercado de carros zero km, seminovos e usados. O carro passou a ser o meio de transporte mais seguro e desejado pelas pessoas, aumentando a demanda por veículos. Porém a oferta não acompanhou a demanda, devido à paralisação da indústria, falta de matéria prima e componentes. Juntando isso a fatores como juros baixos e alta do dóIar, os preços dos carros zero subiram.
"Baixo estoque, alta volatilidade nos preços de compra e venda, demora na entrega do usado para troca, em função do atraso na entrega do veículo zero km, entre outros desafios começam a surgir", avalia J. R. Caporal, presidente da Auto Avaliar, empresa de tecnologia em gestão de estoque.
Hoje o setor automotivo tem dois "inimigos": o vírus e a escassez de insumos. Fechamos março com crescimento no Brasil próximo a 16%, em comparação a março de 2020, mas grande parte dessas vendas ocorreu nos meses anteriores, e só foram emplacados em março, pois os clientes estavam aguardando a entrega dos veículos pelos fabricantes", afirma Raimundo Valeriano, diretor da Regional Bahia da Fenabrave. Para ele, as paradas pontuais eram esperadas e serão utilizadas pelas montadoras quando o seu estoque chegar a um nível crítico que impacte a linha de montagem. "A consequência disto, é que as concessionárias passam a ter um estoque reduzido, gerando lista de espera para alguns modelos".