O risco fiscal e os juros elevados estão fazendo o mercado diminuir as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2022. De acordo com o relatório Focus divulgado pelo Banco Central (BC) ontem, a expectativa mais recente é de um crescimento de 2,04%. No início do ano, era de 2,5%. Na última semana, a MB Associados reviu sua previsão de expansão do PIB de 1,8% para 1,4%. E o Itaú baixou de 2% para 1,5%, indicando que o desempenho de 2022 pode ficar abaixo de 2%.
As projeções começaram a cair rapidamente em junho, quando já estavam em 2,3%. No início do mês seguinte, jáestavamem2,l%e passaram a cair ainda mais em agosto.
O risco fiscal também foi um dos responsáveis pela alta do dólar ontem. Em um dia marcado por muitos altos e baixos, a divisa ganhou força durante a tarde e encerrou o pregão com valorização de 0,67%, cotada a R$ 5,2812, no maior patamar desde maio. A moeda americana também subiu pelo desempenho abaixo do esperado da economia chinesa e a tomada do Afeganistão pelo Talibã, que afetaram os mercados em todo o mundo.
Carla Argenta, economista-chefe CM Capital, explica que, mais recentemente, muitos analistas passaram a ver que a recuperação da economia ficará concentrada neste ano, o que contribui para o recuo das projeções para 2022.
Ela diz que o mercado tem visto com preocupação as notícias sobre o parcelamento no pagamentos dos precatórios e a reformulação do Bolsa Família e os impactos nas contas públicas:
- De um lado teremos uma capacidade menor de investir justamente porque vamos ter uma dívida mais alta, uma capacidade menor de o Estado fazer alguma intervenção na economia real. E vai acabar ficando menos atrativo para investimento externo. Temos um componente duplo para termos um crescimento menor no PIB.
Essa queda nas expectativas de crescimento acompanha as altas das projeções de inflação e de juros. De acordo com o mesmo relatório Focus, o mercado vem aumentando estimativas de inflação para 2022 nas últimas quatro semanas. Há um mês, estava em 3,75%, agora passou para 3,9%, acima do centro da meta de inflação de 3,5%.
Com inflação esperada maior, o mercado também subiu a previsão da taxa básica de juros, a Selic, prevendo que chegará a 7,5% no fim de 2021. Há um mês, esperava 7%.
A economista-chefe do banco Ourinvest, Fernanda Consorte, disse que há muita incerteza para 2022, principalmente relacionada às eleições, que envolvem decisões políticas e fiscais que afetam os juros.
O Banco Central deixou claro que se tiver um fiscal expansionista (mais gasto público), vai tentar conter a inflação e, portanto, teremos mais juros. Como há uma vertente do governo mais populista, que defende gastar mais, até com aumento do valor do Bolsa Família, isso, sem dúvida, é um motor a mais para a inflação. E, por consequência, vai requerer mais taxa de juros.
Justamente para baixar as expectativas de inflação o BC tem aumentado os juros. De 2% ao ano em janeiro, a taxa passou para 5,25% este mês e deve subir mais.