Dando sequência à série A Nova Rota da Mobilidade, este artigo aborda a transição do fenômeno global chinês e seu impacto direto no mercado brasileiro
A presença das montadoras chinesas no Brasil entra agora em uma nova fase - mais estruturada, mais competitiva e, sobretudo, mais relevante.
A primeira e a segunda ondas
A primeira onda, entre 2010 e 2020, foi limitada em escala e percepção. Produtos focados em preço, com menor conteúdo tecnológico e dúvidas sobre qualidade, impediram uma penetração mais consistente.
A partir de 2020, inicia-se uma segunda onda - e ela é qualitativamente diferente.
As novas operações chegam com uma proposta muito mais robusta:
• portfólios fortemente eletrificados
• elevado conteúdo tecnológico
• padrões de qualidade alinhados aos benchmarks globais
• posicionamento claro de valor para o consumidor
Esse movimento não é isolado. Ele reflete diretamente a evolução do próprio ecossistema chinês, que passou a competir não apenas por custo, mas por inovação, velocidade e experiência do usuário.
O resultado já é visível. A participação das marcas chinesas no Brasil salta de cerca de 1% em 2020 para algo próximo de 10% em 2025 - com protagonismo absoluto nos segmentos eletrificados e agora com novo foco em flex para 2026.
Mais do que crescimento, trata-se de uma mudança de posicionamento competitivo.
Onde os chineses tendem a ganhar - e onde ainda enfrentam limites
A expansão, no entanto, não será homogênea.
As marcas chinesas tendem a avançar principalmente nos segmentos de maior valor agregado:
• SUVs
• sedãs médios
• veículos eletrificados
• comerciais leves
Não por acaso, esses são os segmentos que concentram maior rentabilidade para as montadoras tradicionais.
Por outro lado, ainda existem barreiras relevantes:
• segmentos de entrada, altamente sensíveis a preço
• picapes, com forte tradição de marca e uso específico
• nichos premium mais consolidados
Além disso, há desafios estruturais que moldam a velocidade dessa expansão:
• recomposição gradual do imposto de importação
• necessidade crescente de produção local
• limitações de infraestrutura para eletrificação
• construção de confiança e reputação de marca
Esses fatores não impedem o avanço - mas influenciam no ritmo e na forma como ele ocorre.
O que esperar daqui para frente
Mesmo com essas restrições, os sinais apontam para um crescimento estrutural.
Em diferentes cenários projetados, as marcas chinesas podem representar mais de 25% do mercado brasileiro até 2035 - ou seja, potencialmente um em cada quatro veículos vendidos no país.
Esse avanço não deve ser interpretado como um movimento pontual ou oportunista.
Ele é consequência direta de um modelo industrial mais rápido, mais integrado e mais adaptado às novas demandas do consumidor - exatamente como observado no ecossistema chinês, hoje reconhecido por sua capacidade de acelerar ciclos de inovação em escala global.
O verdadeiro limite da expansão
A questão central, portanto, não é se as marcas chinesas continuarão crescendo no Brasil, mas sim até onde elas podem chegar. E muitas associações irão acontecer.
E essa resposta não está apenas nas mãos dos novos entrantes.
O limite dessa expansão será definido, em grande medida, pela capacidade de reação das montadoras tradicionais:
• competitividade de produto
• velocidade de eletrificação
• eficiência de custos
• reposicionamento de valor
• e principalmente suporte adequado e priorização do Brasil nos headquarters
Em outras palavras, o avanço chinês não acontece no vácuo - ele redefine o jogo competitivo.
No capítulo final desta série, abordaremos os aprendizados dessa transformação e as implicações diretas para montadoras, concessionárias e todo o ecossistema automotivo no Brasil.
Paulo Cardamone, CEO da Bright Consulting, escreve com exclusividade para a Automotive Business e convida você a acompanhar a série "A Nova Rota da Mobilidade". Este é o terceiro artigo da série. Confira os artigos já publicados:
1- A nova rota da mobilidade começa fora do eixo tradicional
2- O ecossistema chinês: mais rápido que o resto do mundo
Paulo Roberto Cardamone, 71 anos, é CEO da Bright Consulting, com mais de 45 anos de experiência no setor automotivo, atuando em planejamento estratégico, eletrificação, cadeia de suprimentos e mobilidade. Apoia clientes em cenários futuros, investimentos e alianças. Desde 2010, assessora o governo brasileiro em políticas de competitividade, eficiência energética e segurança nos programas Inovar Auto, Rota 2030 e Mover. É graduado em Estatística (Unicamp), com MBA pela USP, membro do Comitê Automotivo da Amcham e da SAE.