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Setor automobilístico enfrenta desafios e busca forma de avançar no País

Publicado em 30/07/2019

Ao assumir a presidência da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotivos (Anfavea), associação que representa as montadoras de automóveis instaladas no país, Luiz Carlos Moraes sinalizou, em seu discurso de posse, que tinha pleno conhecimento dos desafios que estavam no horizonte. “Estamos diante de uma revolução nunca antes vista”, afirmou na ocasião. “O que está ocorrendo lá fora é a maior e mais impactante transformação da indústria automotiva.” Não só no exterior. O setor automobilístico brasileiro enfrentou, nos últimos anos, um dos mais complexos e desafiadores momentos da história. Como resultado desse processo, cerca de R$ 50 bilhões foram aportados pelas matrizes para evitar uma quebradeira generalizada. A missão, agora, é contribuir para a elaboração de uma reforma tributária que elimine o que Moraes chama de “aberrações”. Na entrevista a seguir, o executivo, que também é diretor de comunicação corporativa e relações institucionais da Mercedes-Benz do Brasil, fala sobre os novos desafios da indústria automobilística e detalha o que é preciso ser feito para o setor avançar no país.

Muitos setores da economia não se consideram prontos para uma concorrência de mercado global. A indústria automobilística brasileira está em condições de competir em igualdade?

Estamos preparados. As empresas do setor estão sempre fazendo investimentos em modernização, em atualização de fábricas e tecnologia. Muitas de nossas empresas estão fazendo investimentos relevantes na chamada indústria 4.0. O atual ciclo, até 2024, será de R$ 39 bilhões. Isso não será apenas para aumento de produção porque já temos grande capacidade instalada, mas para modernização, atualização de fábricas, novos produtos e novas tecnologias. Então, do portão para dentro, temos fábricas tão boas, tão modernas, tão tecnológicas quanto as lá de fora. Os problemas da indústria estão do portão para fora. Aí começam nossos desafios reais.

Que problemas são esses?

São muitos. Nota fiscal, logística, custos tributários altíssimos, para citar apenas alguns exemplos. Mas isso não diz respeito somente ao setor automobilístico. Essa é uma realidade de toda a indústria, de toda a sociedade. Quando nós, da Anfavea, brigamos pela competitividade, estamos querendo quantificar, mensurar, avaliar e, a partir dessas avaliações, sugerir melhorias que eliminem as aberrações do Brasil. A carga tributária continua sendo muito alta. No setor automotivo, por exemplo, o automóvel, dependendo da cilindrada, paga de 37% a 44% de imposto. É a maior carga tributária no país, fora outros diversos problemas que enfrentamos. Para voltar a crescer, a indústria precisa se livrar dessas aberrações.

O senhor diria que a maior das aberrações é a questão tributária?

É uma das mais relevantes, sem dúvida. A indústria, por exemplo, carrega saldo credor de impostos muito altos. Ou seja, temos dinheiro a receber do governo federal. Quando exportamos, há uma distorção do sistema tributário. Carregamos resíduos tributários, valores que não conseguimos utilizar, créditos fiscais que se transformam em resíduos e que aumentam o custo de produção no Brasil. Esse custo adicional do produto exportado não é repassado. Isso não tem sentido. Em países mais modernos, ou não existe resíduo ou o resíduo é muito pequeno. Fizemos estudos que comprovam como é importante a eliminação desses resíduos na futura reforma tributária.

Essas questões estão sendo trabalhadas junto ao Ministério da Economia, especialmente depois do acordo do Mercosul com a União Europeia?

Já estavam sendo tratadas antes. Temos que valorizar o bom trabalho do Ministério da Economia. O ministro Paulo Guedes também tem demonstrado essa intenção e a equipe econômica está trabalhando nesses assuntos. Guedes deu prioridade para a reforma da Previdência, porque era um assunto de maior importância no sentido de diminuir o deficit fiscal, mas agora está buscando realmente apoio à indústria, a fim de tirar, como ele diz, a bola de ferro dos pés e o piano das costas dos empresários.

Qual é o papel da Anfavea na transformação do ambiente de negócios do país?

A função da Anfavea, como indústria automobilística, é mostrar onde estão as principais dificuldades e custos para, paulatinamente, ajudar o governo a encontrar mecanismos de eliminações disso tudo. Agora, com a assinatura do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, passamos a ter data para ser competitivos. Temos urgência nisso. Não só a indústria automobilística, mas o Brasil como um todo. Todos os setores enfrentam desafios semelhantes.

Quanto tempo vai levar para o Brasil estar em condições de competir?

É muito difícil avaliar. Mas é importante dizer que ser competitivo é uma questão para ontem. A indústria automobilística entende que isso é prioridade agora. A sociedade brasileira não suporta mais tanta ineficiência. Por isso, as reformas são fundamentais. Depois da Previdência, a segunda grande reforma que está no radar é a tributária.

Qual é a reforma tributária ideal?

Num primeiro momento, ela deverá buscar a simplificação porque a quantidade de impostos que existe, a quantidade de burocracia exigida para o cálculo dos impostos, tudo isso inviabiliza o crescimento. As empresas têm estruturas enormes para acompanhar diversas legislações. Isso acaba exigindo investimentos gigantescos em sistemas de computador, em sistemas de apuração de impostos. E, claro, estimula interpretações diferentes dos tributos porque um estado interpreta de um jeito, outro interpreta de maneira oposta. Isso é custo que afeta as nossas empresas e a competitividade de nossos produtos. Não é à toa que, no Brasil, um carro custa mais, uma máquina custa mais, o celular é um dos mais caros do mundo.

Mas as margens de lucro das multinacionais não são bem maiores no Brasil do que no restante do mundo?

Não concordo. Não vejo isso no setor automobilístico. Só para dar uma dimensão, entre 2014 e 2016, com o tombo na economia, as matrizes das montadoras assumiram prejuízos enormes. As operações brasileiras tiveram de pegar recursos na forma de empréstimo junto a suas respectivas matrizes. Entrou no Brasil algo na ordem de R$ 50 bilhões para suportar a crise. Isso é dado público, da Receita Federal e do Banco Central. Então, podemos definir a questão como “prejuízo-Brasil”, em vez de “lucro-Brasil”. Se as nossas empresas não tivessem recebido apoio robusto de suas matrizes, estaríamos com problemas sérios. Por isso, outras empresas do setor que não têm matrizes fortes deixaram de existir ou estão em situação muito complicada.

É o caso das autopeças?

As cadeias de fornecedores, de subfornecedores e de concessionários tiveram dificuldades enormes. O mercado caiu 40%. Isso é muito grave. O Brasil precisa voltar a crescer. O crescimento está muito baixo ainda. Precisamos trabalhar muito para voltar aos níveis de 2012.

As perspectivas são positivas?

Neste ano, as vendas para o mercado interno tiveram crescimento da ordem de 12%. Um crescimento importante sobre uma base baixa do ano passado. Em relação à exportação, tivemos uma queda. Estamos estimando que, no total do ano, poderá atingir 28%, basicamente por conta da crise da Argentina. Então, olhando para os dois lados, a alta foi de 2,8%. Estamos vendo, no segundo semestre, um otimismo moderado. A reforma da Previdência trouxe um sinal muito positivo para os agentes econômicos. Não acredito que teremos um crescimento grandioso neste ano, mas estamos nos preparando para 2020. No ano que vem, teremos um crescimento de 3% a 4%.

Nem mesmo o dólar alto salvou as exportações?

O dólar ajuda na exportação, mas preferimos uma moeda mais estável. Quanto maior é a volatilidade, mais difícil fica planejar a vida. O dólar é um elemento, mas não é o principal. O principal elemento é a redução do custo Brasil e a melhora da competitividade. Quando formos brigar lá fora, vamos brigar com os chineses, os europeus e os americanos. Aí é um grande desafio. Só para dar uma dimensão, a China produz cerca de 27 milhões de carros por ano. No Brasil, estamos tentando chegar a 3 milhões. Eles são 10 vezes maiores. Imagine o grande volume de escala que os chineses têm para competir. Além disso, eles não têm as dificuldades de logística que nós temos. Trata-se, portanto, de um imenso desafio.

Diante disso, como deve ser encarado o futuro?

Não temos que ficar reclamando da vida. Precisamos colaborar e contribuir para a discussão. Devemos apontar onde está o problema e indicar soluções. É isso o que a Anfavea está fazendo.

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Fonte: Fenabrave/SP

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